RPG NA SUA MENTE: FANTASIA

Qual é a importância da fantasia decorrente do R.P.G dentro deste contexto?
Segundo a psicanálise, a fantasia é a fundamentação para o desenvolvimento do pensamento formando a noção realidade humana.
Inicialmente Dr. Freud dividiu o desenvolvimento do pensamento humano em duas etapas: o principio do prazer, no período de gestação onde o ser é voltado para o seu interior sem percepção do externo com todas as suas atenções e desejos satisfeitos e o principio da realidade, onde o indivíduo sente as primeiras necessidades de desconfortos o chamado desprazer a partir disso existe a busca para voltar ao estado de conforto inicial.
Exemplificando, uma criança ao nascer sente fome e é amamentada, o seio torna-se um objeto externo desconhecido a ela que satisfaz o estado de desprazer.
Na próxima sensação de fome a criança confundirá suas lembranças e terá uma experiência alucinógena sobre o objeto externo antes de alcançá-lo novamente, esta alucinação satisfará o desejo psicológico dela mas não o biológico, sendo assim quando a fome perpetua ocorre a decepção pela alucinação, o que joga a criança novamente ao mundo externo, criando assim a noção de real e imaginário.
É lógico dizer que, a maturidade seria a capacidade de equilibrar e diferenciar a fantasia da realidade, criando mecanismos eficientes com facilidade para adaptar-se a realidade, assim como diferenciar vida profissional da vida pessoal.
Em suma, a fantasia é o mecanismo humano de ponte mediadora que ameniza este desprazer até chegar ao ponto de poder voltar ao estado de prazer.
Alem de criar uma armadura protetora contra os impactos da realidade no universo interno gerando adaptações para o ser interno suportar a realidade externa.
Quando um desejo interno não é satisfeito gera frustrações que se transforma em patologias, a fantasia permite que os desejos inconscientes reprimidos sejam satisfeitos e sublimados.
Através desta exposição de conteúdo, é obvio a importância da fantasia para a saúde mental e física do individuo esta pode resultar também em incríveis criações artísticas, cientificas ou ainda, traves de personagens de R.P.G como forma de sublimação dos desejos individuais.
RAFAEL ROCHA
RPG NA SUA MENTE: NARRATIVA
“O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta”
(BENJAMIN, 1936).
Com esse tédio já extinto, como os ninhos do pássaro, o ser humano perde o dom de ouvir histórias. O ato de contar historias é encontrado em todas as culturas desde tempos antigos, através de odisséias, poesias, mitos, lendas, fatos, fofocas, especulações, causos, não importando como, existe a necessidade humana de expressar e compartilhar informações para outras pessoas mantendo assim sua identidade cultural.
A ação de narrar tem sempre um ensinamento, ou seja, um aprendizado enraizado em forma de normas de conduta. Toda uma cultura pode ser transmitida através desta iniciativa oral. Atualmente, esta sendo revivida a ação dos contadores de história, segundo Rubem Alves, na busca de ensinar o que realmente importa e não apenas o que a mídia oferece.
O R.P.G. é uma ferramenta de contar historias de forma interativa, fazendo os ouvintes serem locutores e os contadores serem ouvintes, ou melhor, o educador também sendo educado. Aquele que ensina também aprende, compartilhando seus conhecimentos com os conhecimentos do grupo.
Assim, alicerçando ao material produzido pelo filosofo Walter Benjamin (1936), a ação da narrativa como condição social saudável é âncora memorial da civilização.
Caracteriza-se a narração de histórias em 3 fatores fundamentais, primeiro o cenário deve ser comum a todos, com significado similar para ouvintes e narrador, segundo a historia deve ser construída de forma artesanal com o tempo adequado entre as gerações para que não se perca, por ultimo a troca de experiência entre narrador e ouvintes dentro de um fluxo narrativo comum e vivo continuando a história sem limite determinado.
No R.P.G. todas as características citadas são preenchidas de forma que, recorrendo à dissertação de mestrado de Andréa Pavão, conclui-se que muitas ações na pratica do roleplaying game é fruto de conhecimentos anteriores, experiência trazida pelo narrador e os participantes de todas as suas leituras, filmes, vivências e toda a movimentação social.

“Haveria uma proximidade entre o contador de historias, o narrador e o mestre de RPG, pelo papel que assumem ao conduzir uma leitura, seja ela de um livro, de um caso ou de uma aventura fantástica, para um ou mais ouvintes, que não mantém uma postura passiva. À medida que o ouvinte interrompe, pergunta, critica, reconduz a narrativa em outra direção, o mestre vale-se de seu atributo ‘repentista’, como também de sua ‘bagagem pessoal’, do repertorio acumulado pela vida.”
(PAVÃO, 1996).
RAFAEL ROCHA
RPG NA SUA MENTE: COGNIÇÃO
A cognição ou ato de conhecer, é o processo ou faculdade de adquirir conhecimento baseado na consciência das experiências sensoriais sendo lembranças, pensamentos ou representações em forma de signos, esquemas ou figuras. De forma mais clara, cognição seria aprendizado ou ainda o processo de aprendizagem.
Na psicologia cognitiva, conhecer algo esta conectado com o ato da permanência de uma informação em arquivos mentais. A memória humana é dividia em três estágios de armazenamento, inicialmente a memória de sensorial a qual pega as informações instantaneamente pelos sentidos, adiante existe a memória de curto prazo ao qual seleciona, acessa, codifica e arquiva as informações em sistemas relacionados. Por fim a memória de longo prazo com a função de guardar essas informações como um grimorium ¹ para serem acessadas sempre que for necessário através da memória de curto prazo.
Tendo base na teoria de David Ausubel (1978), a aprendizagem pode ser cognitiva, afetiva ou psicomotora. A aprendizagem cognitiva ocorre no armazenamento lógico e ordenado de informações na mente do aprendiz, na aprendizagem afetiva traços internos do aprendiz vindos de experiências passadas como prazer ou dor efetivam o processo. Na aprendizagem psicomotora ocorre um conjunto de respostas musculares devido ao treino e pratica, mas a aprendizagem cognitiva é fundamental na aquisição de habilidades psicomotora.
¹ livro ao qual o mago escreve suas magias e as procuram sempre que deseja usá-las.
A prática do R.P.G utiliza as 3 formas de aprendizagem dando ênfase maior na cognitiva e afetiva, tornando-se ferramenta de ensino mais completa.
Ausubel ( 1978 ) defende que no processo de adquirir conhecimento existem duas linhas de saberes que se interligam intimamente a da aprendizagem mecânica e a da aprendizagem significativa. A ação mecânica é necessária quando o individuo adquire informações em uma ¹ livro ao qual o mago escreve suas magias e as procuram sempre que deseja usá-las. Área de conhecimento completamente nova pra ele e através desta constrói conceitos, estruturas cognitivas e pré-requisitos nesta área do saber.
Na ação significativa é um processo em que a nova informação se interliga e relaciona com informações antigas da estrutura cognitiva do individuo, ou seja, a nova informação ancora-se em conceitos ou pré-requisitos já contidos na estrutura cognitiva do aprendente. Através do agrupamento de conceitos formam-se esquemas de conhecimento ou representações mentais como livros específicos de uma biblioteca em determinada área do saber.
Todo esse processo ocorre primordialmente, no lado esquerdo do cérebro,ou seja, o lado responsável por ações lógicas e racionais, ao qual pode arquivar as informações de forma ordenada, porem, o lado direito que é responsável pela emoção, intuição e imaginação também é importante e não será descartado no processo.
Mas antes deve-se recorrer a algumas idéias fundamentais, como a teoria de Piaget (1977), ao qual, no final do processo de desenvolvimento mental, por volta dos 15 anos de idade o ser humano gera a capacidade de raciocinar em hipóteses verbais e não apenas com objetos concretos, mas com abstrações e hipóteses abrindo a porta da filosofia e tendendo a sair do egocêntrismo para um pensamento grupal.
Segundo Howard Gardner (1981), psicólogo americano autor da teoria das inteligências múltiplas, existem sete tipos de inteligências, a musical, a corporal-cinestésica, a lógico matemática, a lingüística, a espacial, a interpessoal e a intrapessoal. Com isso vem a idéia que inteligência não é uma ação única para resolver problemas específicos de ordem lógica como um computador mais a ação interligada de varias inteligências singulares em um processo continuo.
Na ação de interagir no R.P.G as ações são tanto racionais quanto imaginativas ou seja, os dois hemisférios do cérebro tem lugar de ação, assim como ocorre na leitura. Não se pode esquecer que tudo se passa através da abstração, interpretação e imaginação, com a ação lúdica permitindo a utilização saudável dos dois hemisférios do cérebro, diferenciando a fantasia da realidade através de um processo de narrativa interativa, assim aumentando a margem de aprendizado utilizando todos os aspectos tratados nestas referências.
Rafael Rocha
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